Pessoas cagadas no mundo

Tenho que pedir mais uma vez desculpas pra vocês por conta da longa ausência entre postagens. Agora foi a vez da minha irmã me visitar aqui em Barcelona e meu pouco tempo de ócio acabei passando com ela, meu sobrinho e editando os posts antigos para o livro que vou lançar.  Voltemos ao post…

Devido ao nosso trabalho, minha namorada e eu lidamos todo dia com diferentes pessoas, dos mais diversos países, culturas, classes sociais e hábitos. Por conta disso, é comum cruzar em nossos caminhos pessoas que não conseguimos dar uma classificação sobre o que é aquele(a) sujeito(a).  À noite, quando estamos juntos, contamos nossa experiência um para o outro sobre o ocorrido, tentamos buscar uma explicação para determinado comportamento e atitude e a única conclusão que chegamos é que algumas pessoas foram paridas no mundo, outras foram cagadas.

Na verdade as pessoas que foram cagadas no mundo tem alguns traços em comuns. Óbvio que uma pessoa cagada jamais admitirá tal condição, mas você pode se precaver de relacionar-se com ela e evitar a perpetuação da espécie. Vamos a alguns elementos:

Quer mais que oferecer – Já teve alguns estudos sobre essa teoria, mas basicamente dizem que as pessoas mais felizes são aquelas que se sentem melhor presenteando a ser presenteada. Sendo verdade ou não, pessoas cagadas nunca vão oferecer nada de graça. A máxima delas é tirar benefício próprio da ocasião. A vida pra elas obedece a matemática “se eu dei algo, tenho que ganhar o dobro”.

Inflexível – Pessoas cagadas veem o mundo preto e branco. Pra elas o cinza é um branco escuro ou um preto claro, não existe meio termo. Se elas tinham agendado um jantar, mas por algum motivo maior acabou não ocorrendo, não conseguem pensar em alternativas, apenas ficam chateadas, remoendo e reclamando o fato do jantar ter sido cancelado.

Oportunista – Procuram situações para tirar o máximo de proveito.  Vão a um happy hour que acaba as 21:00 e as 20:55 pedem 5 chopes pra ganhar 5 de graça e depois de 10 minutos está tudo quente e intragável, mas para a mente brilhante, ela ganhou 5 chopps.

Soberba  – Garçom, emprega doméstica e porteiro são pessoas que estão em outra classe de ser humano pra essas pessoas. Mal cumprimentam, cagam ordens e na menor discussão usam todo o seu poder social pra mostrar que estão sempre com razão e não devem ser contrariadas. Muitas vezes esse comportamento é observado no trato com os pais.

Impacientes – Por serem pessoas muito especiais, não toleram a espera. As coisas precisam ocorrer ao ritmo delas, se uma atendente de caixa é um pouco mais lenta, já começam a bufar e fazer malcriação.

Adota o conhecimento das multidões – A justificativa pra fazer algo errado é sempre justificada no “todo mundo faz isso”. Não para o carro em faixa de pedestre, não cede espaço em assento preferencial,  usa o acostamento pra fugir do trânsito.

Judicializa ações – Quando as coisas saem errado, apela para o “Vou levar pra outra estancia”. Ao invés de buscar conciliação, tentam ganhar a causa na chantagem e metendo processo.  Essa característica mescla muito bem com a soberba e o cérebro de ervilha profere a profunda e madura frase “sabe quem eu sou”? Advogados de meia tigela e filhos de alguma coisa pululam essa espécie.

Cínica – Essa categoria transborda. Vivem criticando as atitudes citadas acima, mas na prática são iguais. Fala, mas não faz. Condena traição e trai, “trato bem a faxineira”, mas a obriga utilizar uma roupa ridícula e usar o elevador de serviço, como se fosse um animal. Tive uma chefa que era toda paz e amor, “sofria” pelas pessoas miseráveis e um dia postou que achava um absurdo ver um “oportunista” mendigando na porta do banco com sua filha no colo.

Egoísta – Essa característica é o elo entre todas acima. É o Capitão Planetade uma pessoa defecada no mundo. Todas as características juntas consolidam o egoísta. O outro existe para o egoísta até quando ele pode extrair uma vantagem ou benefício próprio, depois é descartado. Pensar no coletivo é coisa de esquerdista e gay.

Se você encontrar um homem com essas características, tente civilizá-lo (o que é bem difícil depois de certa idade) ou então simplesmente caia fora.

Dia das leitoras – Por que homens somem?

O post de hoje traz duas histórias com panos de fundo bem diferentes, mas com a mesma questão: Por que eles somem?

História I

Aos 16 anos tive um relacionamento bastante abusivo, onde não conseguia enxergar isso, achando natural meu namoro, porém escutava coisas como: “Vamos transar, você sabia que te amo?”, escutava em momentos em que não estava a fim de transar, se e que pode chamar aquilo de sexo, com prazer totalmente unilateral, com um parceiro que tinha nojo de fazer sexo oral em mulher, mas amava receber uma chupada. Esse relacionamento durou 2 anos.

Cafa > Isso tem raiz na falta de educação sexual que temos quando pequenos. Além disso, a sociedade brasileira é hipócrita, somos conservadores na família, mas liberais na individualidade. No caso da mulher, cria um ser focado na satisfação do outro e do homem um machista egoísta.

Fiquei solteira por um tempo, aproveitei bastante, podemos dizer. Ao  iniciar a vida universitária, morando em república, namorei com um cara por 2 anos, quando eu tinha 21 anos, relacionamento esse que não se diferencia muito do primeiro, perdoei várias traições, namoro muito conturbado, com um cara que também não curtia fazer um sexo oral, e que mandava desculpas de: “Eu nunca namorei, não sei como me comportar” escutava isso ao reclamar que nos víamos apenas 1 vez por semana em alguma festa…

Cafa > Outro exemplo de homem que citei no comentário anterior.  Mas também não dá pra exigir maturidade em relacionamento de uma pessoa de 21 anos. Poucas pessoas (e principalmente homens) estão a fim de levar uma relação a sério. É a fase de (normalmente) sair da casa dos país, provar coisas novas, graduação,  começar a ensaiar uns passos pra independência. São tantas prioridades que namorar fica em segundo plano.

Namorei novamente aos 24 anos por 6 meses, um cara muito massa, que me tratava muito bem, um sexo perfeito, porém a distancia não ajudou muito. Hoje me encontro solteira, podemos dizer que aproveitando bastante, por morar em uma cidade universitária, não precisamos de tinder aqui, nas festas tudo e resolvido. Transo na primeira noite, sou aberta e sincera com os caras que pego, entendo quando eles são uns babacas e não mandam msg, na verdade prefiro que façam isso logo de cara, ao invés de vir com conservadorismos no futuro.

Cafa > Você é tão segura de si, demonstra tanta maturidade, mas soa incoerente quando fala “entendo quando eles são uns babacas e não mandam msg, na verdade prefiro que façam isso logo de cara, ao invés de vir com conservadorismos no futuro” Me soa como uma frustração por o cara ter transado com você e nunca mais ter dado as caras. Se os dois tiveram um envolvimento superficial da noite e ele achou uma porcaria, por que deveria mandar uma mensagem depois?  Da mesma forma que a “relação” aconteceu, ela acabou. Do nada.

Me julgo ser uma mulher independente, e sim, acredito ser interessante. Percebo que minha forma de comportamento, ser amiga da galera, amiga de vários homens, parceira, daquelas que chapa, faço o que tenho vontade, como transar de primeira, se estou afim, o que há de errado? O cara também estava… Bom, gostaria de saber, porque vocês homens tem medo de mulheres assim? Será que deposito uma grande expectativa em vocês, e acabo frustrada? Minhas amigas são muito parecidas comigo, e todas percebemos a mesma coisa, então não acredito ser uma viagem da minha cabeça

Cafa > O medo está na sua cabeça que teve uma criação conservadora e agora que respira liberdade fica em conflito sobre como suas atitudes são encaradas pelos homens. De fato, há homens bastantes conservadores que não querem nada sério com uma mulher liberal. Porém, você coloca o véu do machismo na cara e toda rejeição gira em torno disso.

Pode ser que o cara prefira uma mulher mais introspectiva, que os seus assuntos não são interessantes pra ele, ou o sexo uma merda, como eu falei. Há ainda a possibilidade do cara simplesmente não se envolver com alguém que possui as mesmas características que o melhor amigo dele de bar.

Quando eu comecei com o blog lá em 2007 um monte de amigo falava que eu era louco, que isso afugentaria um monte de mulher, que só atrairia tranqueira e tal. E ainda ficando no anonimato, sem ninguém saber como eu era fisicamente, conheci três namoradas no blog que são ótimas pessoas.

Talvez o círculo de festinhas e bares de faculdade que você frequenta não seja o lugar mais adequado pra conhecer o homem que busca.

 

História II

Ai que raiva de mim! Me apaixonei por um homem casado que parecia estar muito envolvido, ele me cercava de atenção e carinho, e eu boba, ficava encantada com as investidas dele (modo carência ativado) conversa vai, conversa vem, alguns encontros recheados de beijos e amassos… Eu segurei o sexo por alguns dias, até que finalmente marcamos o bendito dia.

Cafa > Já começou errado. Não vou entrar no principal ponto dessa questão, que é o fato dele ser casado, pois qualquer revista Tititi já deu dica sobre isso. Meu ponto aqui é o “segurar o sexo”. Esse foi uma das coisas que eu mudei de opinião ao passar dos anos.

Antes, eu acreditava que o ideal seria não dar de primeira e tal. Só que isso é uma tremenda estupidez. Ela não dá para o cara de primeira, mas já deve ter dado no lustre pra outro e ele mal sabe. A relação começa em um jogo de aparência babaca.

Nesse caso, você bancou a boa moça segurando o sexo, mas estava saindo conscientemente com um cara casado. É um senso de moral bem duvidoso.

Ele me levou pra uma fazenda de um amigo, estávamos sozinhos, ele providenciou o vinho e eu os petiscos. Tudo correu maravilhosamente bem, até que rolou o sexo e eu não relaxei pq ele não quis colocar a camisinha de início, eu insisti tanto durante a transa, que acho que quebrou um pouco o momento. Bem, terminamos, ficamos agarradinhos nos beijando, cochilamos de conchinha.

Cafa > Todos esses detalhes bobinhos como levar pra fazenda, fazer jantinha e dormir agarradinho de conchinha não significam nada. Apenas que o cara é um escroto de fazer cena romântica com uma amante e querer fazer sexo sem camisinha..

Fomos embora, nos beijamos de despedida e tudo parecia que iria fluir tranquilamente. No outro dia um “boa tarde” “adorei ontem” e só… Ops, a luzinha vermelha acendeu, como assim????

Cafa > Você esperava o que? “Olha fulana, você é fantástica! Acabei de terminar com a minha mulher. Quando vamos nos ver?”.

Os outros dias foram seguidos, de algumas mensagens no whats, telefonemas deixaram de existir, algumas demoras em responder as mensagens, mas nunca ignoradas (talvez por educação, sei lá), daí eu comecei a agir da mesma forma, não ligava, demorava a responder, de vez em quando ele me manda um “tô com saudade, preciso te ver” mas não toma nenhuma atitude, tô cansando sabe! Preciso do seu conselho, urgente!!!!

Cafa > Como alguém precisa de conselho em uma situação dessas? Não está claro pra você que virou uma marmita do cara? Ele conseguiu te comer e agora manda umas mensagens tontas pra te segurar e quando conseguir despistar a mulher, sair com você. Meu conselho é simples, seja mais inteligente e pare de sair com esse idiota.

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Quer mandar a sua história para que eu (talvez) comente e publique? É só enviar para cafa@manualdocafajeste.com; Caso queira manter o sigilo e ter certeza que sua história será comentada contrate o Cafa Responde (máx de 2 páginas / arial 12).

Homens que não querem compromisso

Com a enxurrada de informação picada que recebemos o dia todo, sejam posts de ativismo de sofá no Facebook, fotos do Instagram, macacadas no Snapshot, mensagens babacas de grupos no Whatsapp, ou coisas mais “sérias” como e-mails, tendemos a encurtar nosso pensamento também e nos levar por lugares-comuns para facilitar a digestão da informação. Dentro dessa categoria eu coloco a frase “Mulher gosta de homem que não quer compromisso”. Ao invés de pensar nos reais motivos para uma relação não acontecer, é melhor não pensar e aceitar um chavão como resposta.

Óbvio, as vezes o céu não confabula a nosso favor e nos joga num mar de picas que nos deixa por um bom período só levando no rabo em relações fracassadas. Só que isso não é regra e não acredito que alguém interessante fique anos sem conseguir encontrar alguém à altura.

Aqui é importante diferenciar o grupo “homens que não querem compromisso” dos “homens egocêntricos”. Esses últimos dificilmente terão uma relação estável e se rolar, será um inferno. Ninguém consegue viver em harmonia com pessoas que se colocam no centro das atenções/decisões e pouco se importam com o outro. Não querer compromisso é estar, egocentrismo é ser.

Não vou falar do egocêntrico, pois não tem muito o que trabalhar com essa pessoa e sim dos homens “que não querem compromisso”.

Como eu disse, isso é algo mutável e geralmente acontece por dois motivos aparentes: relacionamentos anteriores e fase da vida; e um terceiro não tão aparente assim.

Conheço bastante gente que namorou muito cedo e foi uma bela bosta. Ai gera um trauma e associam relacionamento com tudo de ruim que teve na relação passada, como ciúmes, desrespeito,  traição,  controle, etc.  Se a pessoa não tem maturidade suficiente para entender que relacionamentos são distintos,  cria-se uma armadura e a pessoa se blinda de querer algo sério.

“Fase da vida” eu acredito que seja o que acontece na maioria dos casos. Há momentos que nosso foco canaliza em uma área, seja carreira, intercâmbio, família (pais), etc. No meu caso, por exemplo, aconteceu o primeiro. Eu não tinha outra meta na vida a não ser subir na carreira e sair do misere que vivia almoçando salsicha e dirigindo um carro com cheiro de mijo de gato. Eu tinha vergonha da minha situação, não me abria com ninguém e tinha uma série de relacionamentos superficiais e curtos. Eles não eram minha prioridade.

Só que ainda assim, seja na frustação com relacionamentos anteriores ou foco na carreira, encontrar a pessoa certa muda tudo. As vezes ela parece ser mais uma, mas pouco a pouco ela encontra uma brecha na armadura. A afinidade aumenta, ela mostra os teus defeitos de forma sutil, te desenvolve como pessoa e de repente, está com saudade de passar mais tempo junto. O foco na carreira segue, mas conciliado com uma parceira.

Então, da próxima vez que você ser perguntar por que só atrai homem que não presta, pense bem se o problema é ele que não quer compromisso ou se você não é suficiente pra conquistá-lo.

A decisão de morar junto

Desde pequeno sempre senti algum desconforto em relação à cerimônia de casamento. Quase todos os elementos jogam contra o bem-estar humano.

Com algumas exceções, a temperatura sempre está inapropriada às vestimentas, o terno, gravata e vestidos frufruzentos deixam homens e mulheres mais elegantes, mas o suor sempre está presente.

Há uma forçação de barra para conhecer a família e conhecidos da noiva/noivo, que em muitos casos você nunca viu e nunca mais verá na vida.

Tem a putaria da noiva chegar atrasada pra fazer graça, enquanto os convidados derretem dentro da igreja. Passada a graça, entra um padre cansado e entediado recitando passagens da bíblia, e para as pessoas não tirarem um cochilo, nos obriga a levantar de tempo em tempo para repetir alguma frase bíblica. Nesse momento, aquela tia carola consegue recitar todo o Credo em Deus Pai, enquanto eu movimento minha boca sem emitir som pra não ficar fora da turminha e apenas repito no final “ele está no meio de nós” achando que abalo.

A melhor parte não deixa de ter os seus desgastes. Depois de um trânsito infernal para chegar ao lugar da festa, algum guardador de carros vem extorquir os convidados. Superada essa fase e quando parece que é só entrar e divertir-se, vem pose pra fotos, papelão de tia bêbada, a turma engraçadona da gravata cortada pedindo dinheiro, a aparição da noiva com o câmera man a tira-colo gravando o seu agradecimento aos convidados e por ai vai.

Tirando a parte bacana da comida e bebida a vontade e interação com algumas pessoas legais, casamento é um rito de passagem arcaico, dispendioso e exibicionista.  Se é pra oficializar a união de duas pessoas e celebrá-la com pessoas que valem a pena, é só ir morar junto e fazer um jantar (ou uma viagem de fim de semana) com os chegados.

Fiz essa introdução, pois o segundo tema mais solicitado pelas leitoras para que eu escrevesse foi a decisão de morar junto. Eu acho essa decisão mais importante na relação que o casamento em si. O casamento é um aue feito para a sociedade, enquanto a decisão de viver junto é exclusivamente do casal.

Aparentemente, para um casal que já namora há algum tempo, morar junto parece algo trivial e consequência da relação. Sim, talvez seja, mas quando duas pessoas desejam unir as escovas de dente um novo mundo se abre na relação e as vezes a relação pode dar uma estremecida.

É bom ter em conta algumas mudanças que trazem na relação à decisão de morar junto.

Vamos às principais:

Custo – Quando você já tem intimidade com a pessoa, é preciso por um pouco o pé no chão e discutir a parte financeira. Em boa parte dos casos, é bem possível que um dos dois ganhe mais que o outro e isso deve ser levado em consideração na divisão dos custos. Os gastos fixos da casa, na minha opinião, devem ser compartilhados com proporcionalidade em relação ao salário. Não faz sentido alguém que ganhe 10.000 reais divida igualmente o valor do aluguel com o parceiro que ganha 5.000. Da mesma forma que não faz sentido o monstro do marido comprar quilos de carne e a coitada vegetariana ter que dividir a conta de supermercado.  As vezes o problema do custo nunca é um tema central da relação, mas após o término, uma das partes carrega o saldo por um longo tempo.  Hoje, todo mundo reclama de salário, mas poucas pessoas dão atenção a devida atenção aos seus custos.

Sexo – Sabe tudo aquilo que você leu que o sexo só melhora com os anos? Bom, não é de todo verdade. O sexo no casal é como assistir infinitamente uma série de tv que você ama. No começo você vai assistindo cada temporada e a coisa só melhora, as vezes tem um capítulo ou outro meia boca, mas você vai indo até o fim. Ai acaba e você decide assistir outra vez, e por mais que se divirta, você já sabe tudo o que acontece, qual o melhor capítulo e qual menos agrada. Não há mais novidade, mas você ainda curte. As vezes a série pode ser como o Chaves que você da risada da mesma idiotice pela enésima vez, outras podem ser como Lost, que foi uma sensação, mas não dá a mínima vontade de repetir.

Intimidade – Bom, talvez esse aspecto não seja nenhuma novidade, mas não tem como não abordá-lo. A intimidade nos trás coisas boas e outras tantas nem tanto. Na minha relação, por exemplo, estou na fase que minha namorada entra pra fazer o número 1 no banheiro, enquanto eu tomo banho. Isso me aborrece, pois a descarga desregula ligeiramente a temperatura do chuveiro, o que incomoda um chato metódico como eu.  Além disso, até hoje não sei onde devo cortar minha unha, se vou pra janela sou porco de jogar na área comum (apesar da minha unha ser biodegradável), se corto na sala ou quarto é um pecado mortal, se corto na pia sou nojento, se corto na privada….bom, na privada não tem problema, mas não gosto de sentar na privada pra cortar unhas. Tudo isso é uma mania minha e pequena que não tem sentido algum eu retrucar. Então, na intimidade é muito importante saber o que de fato é uma atitude escrota (como nunca lavar a louça ou cortar a unha na cama) e o que é uma mania boba. Intimidade nos obriga a nos colocar no lugar do outro e pensar em dois.

Privacidade / individualidade – Esse eu considero um dos mais importantes e um dos motivos pelos quais muitos relacionamentos fracassam. Não é porque você decidiu morar junto que todos os programas e eventos precisam ser compartilhados. O cara precisa do tempo dele com os amigos, jogar bola e depois tomar umas cervejas. Da mesma forma que ela também precisa colocar a fofoca em dia e ir a um barzinho com as amigas. Programa a dois são bacanas, mas é fundamental manter a socialização fora da relação. Dentro de casa a mesma coisa. Cada um precisa de seu tempo sozinho, seja pra jogar vídeo-game ou fazer a unha. É preciso equilibrar as horas individuais e com o parceiro para que a relação não mate a individualidade.

Autoconhecimento – Esse é o mais inusitado e o que mais me surpreendeu nas últimas relações. Morar junto é quase como frequentar o divã do psicólogo todos os dias na sua casa. Você conta seus problemas, angústias, conquistas, sonhos, como foi seu dia, etc. O parceiro tem um conhecimento da sua psique quase melhor que um parente próximo. Sabe (quase) todas as suas fraquezas e pontos fortes e ao longo das pequenas discussões, te abre o olho sobre atitudes nocivas e padrões de comportamento destrutivos. Se o parceiro respeita e sabe receber críticas, viver junto vira um exercício de auto-conhecimento único e ainda que a relação não dê certo, no final ele sai um ser humano melhor que entrou.

Diferenças de classe social em um relacionamento

Como estava sem inspiração para escrever, perguntei às leitoras no Facebook que assunto gostariam que eu escrevesse. Fiquei surpreso com a quantidade de solicitações sobre como lidar com diferenças de classes sociais. Aqui há duas possibilidades, a pessoa que possui melhor condição financeira e a que possui menor. Como já vivi os dois lados, abordarei ambas experiências.

Fato é,  ninguém gosta de parecer feio, burro e pobre. No primeiro encontro (via de regra) as pessoas usam sua roupa mais bonita, tentam causar boa impressão no papo e mostrar que não são um fudido. Claro, só um abobado vai falar que é rico ou pobre logo de cara, mas ai as questões de o que você faz, onde mora, formação, etc começam a delinear quão duro ou abastado é fulano.

No meu caso, no começo da minha fase adulta eu era meio fudido, tinha um carro caindo aos pedaços, usava roupas horrorosas e a grana que sobrava para as garotas que eu saia mal pagava a gelada do bar da esquina. Com muita criatividade eu contornava a situação e evitava mostrar a minha condição fudida. Só que isso me atraia nada que prestava. As pobres como eu me achavam esnobe, as mais abastadas não me correspondiam depois de alguns encontros. Eu passava uma imagem superficial e só fidelizava tranqueira, sejam pobres interesseiras ou ricas burras.

Após alguns anos trabalhando e fazendo algum dinheiro eu comecei a mudar minha percepção e estava cagando para a questão financeira, mas eu seguia não querendo uma pobre interesseira ou uma burra rica do meu lado.

Minha primeira ex não tinha muita condição, na verdade a família dela chegou a ter bastante dinheiro, mas perdeu tudo. O mais triste nesses casos é a tentativa de manter o padrão de vida antigo fazendo remendos com a condição atual. A primeira vez que conheci os pais dela parecia um teatro. Todos vestiam roupas de marca gastas (e/ou falsas) falavam de dinheiro e bens quase que a janta inteira. As perguntas que dirigiam a mim era para certificar que eu tinha grana e uma vez passado no filtro financeiro-social, me tratavam com uma submissão e adulação que me faziam mal. A minha ex era boazinha e trabalhadora, me dava pena da família ser tão inconveniente. Nossa relação não deu certo por alguns fatores, mas a família foi um peso importante.

Alguns anos depois conheci outra ex e a coisa inverteu. Ela tinha uma condição muito superior a minha, que eu apenas fui tomar conhecimento meses depois de nos conhecermos. A coisa foi meio nerd, nos conhecemos online e depois de alguns meses pessoalmente. Eu tinha um tesão imenso por ela e não me preocupei em levar em restaurante no primeiro encontro ou mostrar status, convidei-a para comer sanduiche em casa (que naquela época era bem simples)  e foi um encaixe explosivo.

Quando a conheci eu era um ogro, não tinha muito conhecimento de etiqueta, desconhecia um monte de comida refinada e vinhos, que ela me ensinou com bastante paciência. Por outro lado, ela não tinha a vivência de cozinhar a dois, de ir a festa popular, de pagar a conta, e se divertir com coisas simples como tomar um vinho de 30 reais no parque. Então, nossa diferença financeira-social era contornável com um mútuo aprendizado, isso fez muita diferença.

A família dela, por outro lado, não dava a mínima pra mim. Minha presença era simplesmente dispensável e quando a mãe dela tomava umas e outras, eu recebia algumas alfinetadas de que eu não era tudo isso pra filha dela. Como vivíamos longe um do outro, a família não exercia muita influência na relação, mas eu tenho certeza que seria um potencial problema se a coisa avançasse.

Enfim, se o cara te escolheu como parceira, ela sabe qual a sua condição e te aceita por isso. Não sejamos hipócritas, é ótimo tomar champanhe nos alpes franceses degustando um bom fondue, mas também é incrível cozinhar em casa uma feijoada no fogo lento ao som de Natiruts.  Como eu disse, questões como “não consigo frequentar os mesmo restaurantes, viajar, etc” são contornáveis com programas mais simples ou eventualmente a pessoa que possui mais dinheiro bancando um capricho. O dinheiro nos permite experiências únicas, a criatividade também.

Quando me perguntam se a diferença social pesa em uma relação, considerando pessoas maduras e sem complexo patriarcal, eu costumo dizer que pesa mais com quem está fora pra quem está dentro. Se há diálogo entre o casal e ambos reconhecem a diferença social, o único problema é a família, que na minha atual e racional opinião pode ser resolvido simplesmente evitando-a.